Power Rangers requentado - o círculo sem fogo



Assisti ao filme "Círculo de Fogo: a revolta" (em inglês, Pacific Rim: Uprising), que se propõe a ser a continuação a "Círculo de Fogo" de 2013. Fui avisado de que não era tão empolgante, por isso quis entender as diferenças. E como tinha John Boyega, o Finn de Star Wars, tinha de ter alguma coisa boa.

O filme é ruim. Os efeitos são ótimos, mas a história não te prende. Antes de 1 hora de filme você já está mexendo no celular.

A coisa começa num mundo há 10 anos sem ataques kaiju. O filho do herói da época virou um contrabandista vagabundo. Existe uma competição entre uma empresa privada chinesa (Shao) e a ONU (com o velho programa jagger). Por quase 1 hora você desconfia que a corporação Shao é a vilã a ser derrotada.

Estes são os principais erros do filme de 2017:

Quebra constante de clima, criando alívios cômicos fora de hora. Não dá tempo de sentir-se em perigo. Nenhum dos personagens é capaz de passar gravidade, preocupação, deixar o público tenso.

Aliás, alívio cômico não funciona porque não tem tensão suficiente para precisar de alívio.

Na continuação, os robôs estão mais leves, mais rápidos e a sincronia homem-máquina fica só nos movimentos, o efeito colateral (dor) sumiu, deixando as batalhas mais ágeis, mas também sem peso, sem gravidade ou preocupação.

Os pilotos parecem não correr riscos, pois ejetar é um recurso fácil e recorrente ao longo de todo o filme. No original, era quase certo a morte dentro do jagger. Não era usado recurso de ejetar.  Neste filme, operar um jagger ficou algo barato, quase sem risco.

Ou seja, o filme fica sem lastro, boiando sem rumo. Nem é uma aventura divertida nem um thriller cheio de suspense.

A atenção do público é dividida entre dois personagens rasos, que de maneira geral são marginais que trocam a prisão iminente por servir num programa jagger inútil num mundo sem kaijus há 10 anos.

A trama é inexistente e com motivações fracas, com os dois personagens sendo levados passivamente ao meio do conflito. As decisões deles não mudam o rumo da história.

Por isso, não há uma conexão forte (empatia) com as causas deles, não nos fazem torcer por eles ou nos preocupar-nos com sua felicidade/fracasso.




No primeiro filme, temos dois níveis de conflito: interno e externo. Neste, o intrapessoal e interpessoal são pífios, só sobra o nível externo, ou seja, pancadaria em kaijus.

E o Jake fica o tempo todo expondo gratuitamente sua aflição, reforçando verbalmente o quanto ele não é o pai dele e nunca conseguirá ser, e que isso é ruim. Ao mesmo tempo, ele tenta dizer à Amara que ela deve ser ela mesma, sem nunca deixar que digam quem ela é. Dá pra decidir? 

Essa exposição verbal do personagem vai minando de dentro pra fora aquilo que estava escondido e poderia dar a ele peso e profundidade. É como perfurar um poço de petróleo e deixar vazar a riqueza que o público devia perfurar nos detalhes da cena e entrelinhas dos diálogos.

Excesso de diálogos expositivos, sendo Amara a principal. Fala muito, dando informação rápida e gratuita, disfarçada de empolgação. 

Falta de soluções criativas para os problemas. O mesmo conceito químico que cria o problema a ser evitado (sangue kaiju + terras raras = explosão gigantesca) é subutilizado. Ao invés de criar armamentos (projéteis e espadas) com terras raras, capazes de explodir os membros do kaiju ao penetrar, usa-se o material para propulsão dos robôs até o local da briga. É como ter um fuzil na mão e usá-lo como taco de beisebol no inimigo.

Essa preguiça fica gritante na resolução ex-machina dos outros contratempos: os jaggers maus são desativados globalmente numa ação hacker milagrosa (em minutos), e também milagrosamente a personagem Shao aparece com o jagger antigo para resolver a aparente derrota e permitir ao protagonista abater o kaiju e evitar morrer junto (que seria um fim digno e redentor para o protagonista, que salvaria o mundo como o pai, sacrificando a si mesmo).

Os plot twists (aqueles momentos de surpresa na trama) são legais – o cientista com a mente invadida pelo inimigo alien, o jagger mau e poderoso, o plano de explodir os vulcões em cadeia para mudar o planeta para ser colonizado. Mas são mal explorados, sendo colocados no enredo pra dar um gás no ritmo cansativo e sem foco.

A aparição do jagger mau é nitidamente só pra levar a história para o lado alien e mostrar que há uma conspiração dos kaijus em andamento. Só.




É como se a cada 10 minutos o roteirista viesse dizer “não durma! Olhe pra tela! Temos um problema externo urgente que vai valer a pena!”. Se isso precisa ser feito, é porque os personagens e seus conflitos estão chatos e sem sal. Do contrário você ficaria preso à tela torcendo por eles. 

Pra mim, ficou um episódio de Power Rangers com 2h de duração. E daqueles mais recentes, nem do original dos anos 90, que tinham uma narrativa mais estruturada. 

Perguntas que não conseguimos entender:

Depois de mais de 10 anos enfrentando kaijus e 10 livres de invasão, ninguém aprendeu nada da biologia deles para otimizar as armas e abordagens dos jaggers, nem se proteger melhor?
E 10 anos depois ninguém conseguiu reconstruir as regiões litorâneas? 

Ninguém criou zonas de quarentena, que no primeiro filme foi chamado de Maré Azul, com o sangue kaiju matando tudo nos mares (como uma mancha de óleo) onde teve batalha?

A tecnologia bilionária dos jaggers (que são armas militares de ponta, no fim das contas) fica espalhada em sucatas ao redor do mundo, sem nenhum governo recolher, sem segredo militar, expostos à pilhagem e contrabando?

A tecnologia jagger é toda USB plug-and-play? É igual configurar impressora? Ninguém precisou de anos de engenharia e conhecimentos em sistemas avançados? Qualquer adolescente arruaceiro monta um? 

E pra que ter um mercado negro de jaggers? É posto no começo do filme que isso acontece, mas pra que estão construindo novos jaggers piratas se eles não estão mais vivendo com perigo iminente? Onde estão sendo usados?

Outra coisa: há 10 anos sem ataques, porque raios a iniciativa privada está investindo pesado na construção de centenas de jaggers bilionários? Esse tipo de investimento sem demanda é típico de Estados, empresas públicas. Mercado vai atrás de demanda. Sem ataques, não tem compra de jaggers por nenhum governo.

Essa foi a minha crítica. Se quiser saber mais sobre a comparação entre o primeiro "Círculo de Fogo" de 2013 e a continuação de 2017, continue lendo abaixo.



Diferenças entre os roteiros 2013 e 2017

RESUMO DO ENREDO DA CONTINUAÇÃO (2017) 
Filho rebelde e contrabandista do herói deserta do exército, retorna para não ser preso e ajuda uma menina-prodígio a se tornar piloto. Não há mais monstros, mas há produção de jaggers por empresa privada. Surge um jagger misterioso destruindo tudo. Tudo aponta para a empresa privada. Tudo fica mais sério quando descobrem que é pilotado por um cérebro kaiju. Fica parecendo que a empresa privada está fazendo essa loucura.
Tudo muda de novo ao descobrirem que o exército de jaggers está sob comando kaiju escondido na mente do cientista privado. Parece que a guerra será entre jaggers maus x jaggers bons. O embate esgota os jaggers bons, e o conflito é resolvido magicamente hackeando o sistema. Três kaijus escapam. Tudo muda de novo ao descobrirem que o objetivo é explodir o monte Fuji. A missão é evitar isso.
A dificuldade é ter apenas os adolescentes como pilotos. Quando estão quase vencendo, o cientista controlado funde os 3 kaijus em um super-kaiju, que derrota todos e segue para o monte Fuji. Quando tudo parece perdido, o jagger pirata da menina põe o protagonista de volta ao jogo, e depois evita que ele se sacrifique ao abater o super-kaiju. 
Ideia Governante - Buscar sua identidade, sua essência. Começa a história com ambos subutilizados, Jake por descaso e Amara por falta de oportunidade. Termina com eles satisfeitos como pilotos. Motivação: não serem presos.

ENREDO DO PRIMEIRO FILME (2013)
O mundo está em guerra contra os kaijus, que aparecem cada vez mais e maiores. Como as muralhas estão falhando, a única saída antes do fim do mundo é reativar o programa de jaggers que está praticamente sem recursos e pilotos, numa missão arriscada para fechar a fenda por onde os monstros saem.
Isso traz o piloto aposentado Raleigh de volta ao programa, onde ele reencontra seu comandante, seu antigo robô jagger e Mako, uma tenente habilidosa, salva quando criança pelo comandante de um ataque kaiju. Para ser usado como piloto, ele precisa ter um parceiro compatível, e somente a tenente consegue, porém é necessário que ele, ela e o comandante consigam superar seus limites (confiança, pavor, e proteção paternal respectivamente) para que o mundo possa ser salvo.
Ao longo desse processo, vários kaijus são contidos numa onda cada vez pior, até que seguir enfrentando não seja uma opção viável. Só resta tentar fechar a fenda. Para tentar entender mais sobre a fenda, um dos cientistas tenta se conectar ao cérebro de um deles, e entende que são enviados por outra raça, e que a fenda só permite que DNA kaiju passe por ela. Isso força algum dos personagens a entrar em missão suicida agarrado a um kaiju, o que acontece e fecha a fenda.
Ideia Governante – nossas experiências passadas influenciam nossas ações. O mundo deles mudou porque as dificuldades pressionaram os agentes a superar seus passados e poder ter novas ações, que acabam salvando o mundo ao salvar a si mesmos.

Assistindo de novo ao primeiro filme, fica claro o senso de urgência e perigo real, quando é mostrado que tem surgido cada vez mais kaijus, cada vez maiores e que as muralhas de contenção - que aposentariam os jaggers - não estão segurando mais as invasões. Estamos num mundo com cada vez mais ataques, a solução atual não funciona e a solução antiga (jaggers) está quase sem recursos, já que estava sendo desativada. A fala do marechal deixa claro: você (e o resto do mundo) vai morrer em breve mesmo, melhor que seja num jagger e não na muralha.  

O protagonista vem pra estória por ser o único capaz de pilotar um jagger antigo, que é o que sobrou na resistência, já sem verba para novos robôs. 

Um dos grandes trunfos do primeiro é Idris Elba (Marechal) dando o tom grave e puxando o clima do filme para a preocupação, o senso de fim iminente, sem deixar as coisas virarem festa. Por isso mesmo os momentos cômicos são sempre velados, como na dupla de cientistas esquisitos que não se entende, ou o personagem excêntrico Hannibal Chau (Ron Perlman), o traficante de restos de kaiju. 

Aliás, é a presença de estes personagens bem definidos que tempera bem o enredo: o traficante excêntrico, o marechal durão, o cientista louco, etc. No filme de 2017, está todo mundo meio pasteurizado na estória, como um bloco meio homogêneo.

E a personalidade agitada e meio indisciplinada do protagonista é demonstrada paulatinamente no início do filme, nas interações com o irmão e com alguns técnicos do jagger. 

O rapaz problemático (Raleigh, o protagonista) é assombrado pelo trauma de perder o irmão em combate, e encontra redenção na Mako, que precisa superar seu trauma de infância também. Ele precisa abrir mão do passado para confiar, a Mako precisa abrir mão do passado para crescer e o marechal precisa abrir mão do passado para parar de proteger Mako. É uma trama de superação (do passado, em prol do futuro).  Em algum momento cada um dos três precisa realizar uma escolha difícil e crescer. O protagonista precisa confiar, Mako precisa enfrentar e o Marechal precisa decidir entre proteger o mundo ou proteger sua filha. E os problemas externos ficam cada vez piores e maiores, forçando os personagens cada vez mais a tomar uma atitude em relação aos seus problemas internos.

A trilha sonora é pesada, visceral e bem costurada nas cenas de ação, a iluminação e texturas são bem exploradas, e o movimento mais pesado e lento dos jaggers transmite bem o peso, a potência dos golpes e o risco da batalha: os monstros são mais ágeis por serem orgânicos. Os pilotos também sentem muita dor quando o robô é atingido, pois estão sincronizados com ele. Quando o robô apanha, nós sentimos pois sabemos que os pilotos sentem.

Você lembra da trilha sonora desse novo de 2017?

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